A Próxima Fase da IA? A Infraestrutura Energética

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Num contexto em que a inteligência artificial continua a ser uma megatendência, mas os fabricantes de chips já reflectem expectativas extremamente optimistas (ou seja, avaliações bastante elevadas), levanta-se a questão de onde podemos encontrar novas oportunidades e qual será o próximo tema a beneficiar da “corrida aos chips”.

Semicondutores – Será uma Bolha?

Ao longo dos últimos anos pudemos observar uma valorização expressiva das acções do segmento de Information Technology, impulsionada pela aceleração da transformação digital, pelo crescimento da computação em nuvem, pela crescente adoção de inteligência artificial e pela forte expansão dos lucros das empresas tecnológicas.

O entusiasmo dos investidores em torno da IA fez com que antecipassem taxas de crescimento muito elevadas para os principais fabricantes de semiconductores, o que contribuiu para uma expansão significativa das avaliações do sector de Information Technology e, mais especificamente, do segmento de semiconductores.

Se observarmos o rácio de price-to-earnings do índice MSCI World Semiconductor and Semiconductor Equipment Industry (figura 1), verificamos que este se encontra actualmente em 48,4x face à média de 30,6x (cerca de 58% acima da média).

Figura 1: MSCI World Semiconductors and Semiconductor Equipment – Price-to-Earnings (10Y)

Fonte: Bloomberg.

 

Acções tais como a AMD (Advanced Micro Devices Inc), Broadcom e Intel Corp têm rácios actuais de price-to-earnings entre 60x e 157x.

Não obstante a possibilidade de estas empresas continuarem a ter resultados (earnings) positivos, e a ir ao encontro das expectativas do mercado (o que invalidaria a noção de “bolha” no sector), alguma prudência é aconselhável. Nesse sentido, pode ser positivo manter exposição ao sector de forma indireta, que pode continuar a ter resultados crescentes, independentemente de que modelo de inteligência artificial venha a liderar o mercado.

Infraestruturas Energéticas – a Base da Inteligência Artificial

Espera-se que o consumo elétrico por parte dos data centers atinja os 565 terawatts-hora (TWh) em 2026, o que representa um aumento de 26% em relação ao ano anterior e equivale a cerca de 2% de todo o consumo de energia do planeta (figura 2).

A expectativa é que, até 2030, este consumo quase duplique, atingindo os 950 TWh. Até 2035, é expectável que o consumo quadruplique relativamente aos níveis actuais (Gartner) e que, nos Estados Unidos, os data centers possam consumir 20% de toda a electricidade do país (Bloomberg).

 

Figura 2: Consumo elétrico dos data centers globais - 2020-2030

Fonte: International Energy Agency.

O investimento em transição energética tem vindo a aumentar significativamente nos últimos 5 anos, com um crescimento particularmente expressivo no transporte electrificado e em redes energéticas (grids), tendo atingido os 2,3 biliões de dólares em 2025. (figura 3)

Figura 3: Investimento global em transição energética, por sector

Fonte: BNEF, 2005-2025.

 

Até 2030, a expectativa é que a energia renovável continue a crescer enquanto fonte de geração de eletricidade (nomeadamente a energia solar e eólica) (figura 4).

Figura 4: Distribuição da produção mundial de electricidade por fonte (2019-2030)

Fonte: International Energy Agency.

 

Mais especificamente no caso dos Estados Unidos, de acordo com a International Energy Agency, a expansão dos centros de dados está a enfrentar barreiras físicas relacionadas com redes elétricas e equipamentos críticos. O FMI também concluiu que, caso a expansão dos renováveis e das redes de transmissão não seja suficiente para responder à procura, os preços da electricidade podem aumentar cerca de 8,6% nos Estados Unidos.

Já na Europa, o conceito de energy sovereignty passou para o centro da agenda económica e política, em que o objectivo já não é apenas produzir energia mais limpa, mas também garantir que essa energia é produzida, transportada e armazenada localmente, de forma a reduzir a dependência externa.

Isto implica investimentos significativos em redes de transmissão, interligações elétricas, armazenamento energético, energias renováveis, infraestruturas de gás e hidrogénio e, evidentemente, a modernização da rede eléctrica.

Aliás, mesmo sem o desenvolvimento da inteligência artificial, a Europa iria investir fortemente neste tema devido à electrificação dos transportes, à descarbonização industrial e também de forma a responder ao aumento do consumo elétrico e ao claro envelhecimento das redes. A maior parte da infraestrutura europeia foi construída entre os anos 60 e 90 e, neste preciso momento, uma parte significativa destes ativos encontra-se no fim da sua vida útil, o que exige um ciclo de reinvestimento estrutural. Igualmente, a guerra na Ucrânia e as tensões políticas expuseram a vulnerabilidade da Europa tanto em matérias-primas, como também em energia e em cadeias de abastecimento, pelo que um forte investimento é expectável na Europa.

Infraestruturas Energéticas – A Próxima Fase da Cadeia de Valor da Inteligência Artificial

Atendendo às expectativas de investimento em infraestrutura (em grande parte, energética) e à necessidade de consumo energético por parte dos data centers, cuja procura energética deverá continuar a crescer, o investimento em infraestrutura energética pode representar uma oportunidade de manter exposição ao tema da inteligência artificial, sem ser exclusivamente por via de investimento em chips, sendo que a próxima fase da IA pode vir a ser mais condicionada pela disponibilidade de energia do que pela disponibilidade de chips.

Adicionalmente, o sector de infraestrutura oferece maior estabilidade de cash flows, menor volatilidade e maior visibilidade de resultados, enquanto beneficia simultaneamente do crescimento da IA, com avaliações menos exigentes, como é característico do sector, e com um horizonte de décadas.

 

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