Em 2026, o índice S&P 500 já registou 26 novos recordes históricos. À primeira vista, esse desempenho parece contraditório. Afinal, os investidores continuam enfrentando preocupações relacionadas com o crescimento económico, a inflação, as taxas de juro e as tensões geopolíticas. No entanto, por trás das notícias negativas, existe um fluxo crescente de liquidez que está a entrar nos mercados financeiros.
Segundo Scott Rubner do Citadel Securities, diversos factores estão a alinharem-se simultaneamente para sustentar novas subidas nos mercados norte-americanos. O resultado é um cenário que pode favorecer a continuação da valorização das bolsas, mesmo diante das incertezas económicas que ainda persistem.
1) Lucros Empresariais Superam Expectativas
Um dos pilares do optimismo actual são os lucros empresariais. A época de resultados do segundo trimestre está caminhando para um dos melhores desempenhos da história com um crescimento dos lucros por acção do índice S&P 500 próximo de 33%.
Mais importante do que isso é que não se trata apenas das gigantes da inteligência artificial.
Empresas de diversos sectores estão apresentando resultados acima das expectativas, levando analistas a rever as estimativas em alta. Isso indica que o avanço das bolsas está a ser sustentado por ganhos reais das empresas e não apenas pelo entusiasmo dos investidores.

2) Avaliações Mais Equilibradas
Outro aspecto interessante é que os preços das acções estão subindo enquanto os múltiplos de valorização estão descendo.
Normalmente, nos mercados em máximos históricos, as preocupações aumentam em relação à sobrevalorização. Porém, neste momento, os lucros estão crescendo mais rapidamente do que os preços das acções.
O múltiplo P/L projectado para o S&P 500 caiu de aproximadamente 23 vezes os lucros futuros em Outubro passado para cerca de 20 vezes actualmente.
Isso sugere um mercado mais saudável do que muitos imaginam.

3) Alvancagem numa Fase Madura
A reestruturação global da alavancagem parece estar cada vez mais madura. Grande parte do impulso sistemático de desalavancagem já ocorreu, o posicionamento foi reajustado e o excesso de vendas baseado em regras é menor.
Isso não significa que o mercado não possa cair mais, quer dizer que a assimetria está mudando.
Se a volatilidade continuar a cair e as tendências consolidarem-se, as estratégias sistemáticas podem começar a aumentar a exposição novamente.
O próximo fluxo significativo pode ser a realavancagem em vez de desalavancagem.
4) Regresso dos Investidores de Retalho
Após um período de cautela no final de Junho, os pequenos investidores voltaram a comprar acções.
A participação do investidor de retalho tem aumentado gradualmente, especialmente em sectores ligados à tecnologia e semicondutores.
Curiosamente, embora estejam comprando acções, muitos continuam adquirindo opções de protecção contra quedas, sinalizando que a confiança voltou mas ainda não é total.
Historicamente, este comportamento pode representar uma fase inicial de recuperação do apetite pelo risco.
5) Fluxos Recorde para ETFs
Existe uma força que nunca abandonou o mercado, chama-se investimento passivo.
Os ETFs continuam registando entradas massivas de capital. Segundo o Citadel Securities, os fundos passivos receberam cerca de $1,6 bilióes apenas em 2026, superando em 55% o recorde anterior para o mesmo período.

Somente o mês de Julho atraiu aproximadamente $350 mil milhões, a maior entrada mensal de sempre.
Esse movimento cria uma procura constante por acções, independentemente das oscilações de curto prazo.
6) Mais de Um Bilião de Dólares em Recompras de Acções
Outro factor poderoso é o regresso dos programas de buybacks.
As empresas norte-americanas têm actualmente mais de $1 bilião em autorizações de recompras de acções, um dos maiores volumes da história.
Quando uma empresa recompra as suas próprias acções, reduz o número de acções disponíveis no mercado, o que tende a favorecer a valorização dos preços.

Além disso, cerca de 70% dessas buybacks estão ocorrendo fora do sector tecnológico, ampliando os benefícios para uma parcela maior do mercado.

7) S&P 500 Não é o Mercado
Nos dias em que o Índice SOX caiu mais de 3% este ano, o índice SPX caiu apenas 0,8% em média, comparado com 2,4% nos últimos 20 anos. O software tem sido, na verdade, positivo em média, a primeira ocorrência desse tipo desde pelo menos 2001.
A construção do índice, a concentração e para onde vai o dólar passivo marginal é o que importa mais.
8) Maior Participação das Empresas na Subida
Durante a maioria dos últimos anos, o desempenho das bolsas foi impulsionado por um pequeno grupo de gigantes tecnológicas mas agora mais de 70% das empresas do S&P 500 estão negociando acima das suas médias móveis de 200 dias, um sinal clássico de fortalecimento da tendência de alta.
9) Volatilidade abaixo de 15
Baixa volatilidade normalmente é vista como uma consequência da subida das acções mas, à medida que a volatilidade realizada de 30 e 60 dias é revisto para baixo, a própria volatilidade cria uma capacidade adicional para exposição sistemática.
Ao mesmo tempo, a extrema volatilidade embutida em semicondutores e memória começou a normalizar. 
A volatilidade implícita média de três meses entre os 10 maiores componentes do SOX caiu quase 20 pontos neste mês, enquanto a diferença entre VIXEQ e VIX reduziu drasticamente em relação aos recordes máximos.
10) Opções: Crescente Procura por Apostas Optimistas
Os investidores estão comprando opções de compra (calls) em volumes recordes, indicando expectativa de novas subidas.
Ao mesmo tempo, o custo relativo da protecção contra quedas diminuiu significativamente.
Essa mudança psicológica é importante porque parte do mercado já não está apenas defendendo-se mas começando a apostar activamente em ganhos futuros.
Conclusão
Embora os riscos macroeconómicos continuem presentes, o equilíbrio entre os compradores e vendedores parece ter mudado a favor dos compradores.
Para Scott Rubner, o maior risco para os investidores neste momento pode não ser uma queda repentina do mercado mas sim ficar de fora de uma nova fase de valorização impulsionada pelo retorno gradual do capital às acções.
A grande questão para Setembro será diferente: depois de tantas compras, ainda restará combustível para sustentar a alta?
Até lá, Agosto poderá continuar a ser o mês dos compradores.
Fonte: Citadel Securities