Antes amplamente associados a defesa, conceitos como “soberania”, “autonomia estratégica” ou “soberania estratégica” têm nos últimos tempos ganho um significado mais lato. Com efeito, o conceito de “soberania” expandiu-se para um tema mais amplo na Europa, englobando fundamentalmente a capacidade de autogovernação.
De acordo com o Parlamento Europeu (2010), “autonomia estratégica”, pode ser definida como “a capacidade de agir autonomamente em áreas de política consideradas estratégicas”, e foi estreitamente ligada não só à política de defesa da União Europeia (UE) como também à pandemia e guerra na Ucrânia.
No ano de 2020, o termo “soberania estratégica” foi introduzido, novamente pelo Parlamento Europeu, como a “capacidade de agir autonomamente, de depender dos seus próprios recursos em áreas estratégicas essenciais”. A recente turbulência geopolítica e económica (mais notavelmente com os EUA) evidenciou a importância destas áreas estratégicas e a necessidade de compreender melhor como os estados-membro podem ser sustentar-se, alcançar um crescimento económico resiliente e coesão social.
O Invest Trend “AUTONOMIA ESTRATÉGICA EUROPEIA” visa capitalizar de temas estratégicos com vista à soberania estratégica europeia num mundo cada vez mais fragmentado e com uma retórica cada vez mais protecionista.
Composição do Trend:

Soberania Estratégica
Num mundo instável, incerto e em constante transformação, a UE encontra-se numa encruzilhada decisiva. Numa altura em que o protecionismo americano ressurge, a Europa é forçada a repensar profundamente as suas bases industriais, energéticas e de segurança. Neste sentido, temos observado os líderes europeus cada vez mais vocais sobre estas e outras necessidades de, individual e coletivamente, reforçar a resiliência em tecnologias de ponta e outros temas como o clima, energia, alimentação, saúde e água.
Durante décadas, a Europa prosperou em grande medida graças à globalização, ao comércio e à partilha de recursos. Mas, o facto é que este modelo revelou-se particularmente vulnerável em 2020, após a pandemia. Encerramentos de fábricas, perturbações logísticas, escassez de medicamentos, todos eram sinais de alerta de uma dependência excessiva. A guerra na Ucrânia vem expor a fragilidade dos abastecimentos de gás e cereais e, mais recentemente, a aceleração da “desglobalização” com as tarifas anunciadas em Abril de 2025 pelo presidente dos EUA, Donal Trump.
Medidas, Iniciativas e Programas
Perante estes desafios, os países e instituições europeias aceleraram os seus projetos, medidas e iniciativas:
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Food 2030 (Outubro 2016) - quadro de política de investigação e inovação para sistemas alimentares sustentáveis;
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The European Green Deal (Dezembro 2019) - estratégia climática da UE para atingir a neutralidade carbónica;
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NextGenerationEU e InvestEU (Dezembro 2020) - pacote de recuperação pós‑pandemia;
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REPowerEU (Maio 2022) - plano para reduzir dependência energética da Rússia;
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Reform of the Common Agricultural Policy (Janeiro 2023) – reforma para apoiar o rendimento agrícola com foco nos pequenos/jovens agricultores, aumentar a sustentabilidade da agricultura, dar autonomia aos Estados‑Membros via Planos Estratégicos e promover zonas rurais;
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European Chips Act (Setembro 2023) - pacote legislativo para reforçar a produção de semicondutores;
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Sondervermögen (Março 2025) – fundo “especial” de investimento alemão destinado a infraestruturas e outros investimentos a aplicar ao longo de 10 a 12 anos;
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EU Cloud and AI Development Act (Abril 2025) - regulamento para expandir a capacidade europeia em cloud e inteligência artificial (AI);
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Industrial Accelerator Act (Setembro 2025) - ato para acelerar a descarbonização industrial e simplificar licenciamento.
DEFESA, um novo paradigma
A suspensão temporária, no início de 2025, de certas entregas de armamento norte‑americano à Ucrânia veio confirmar o inevitável: a Europa já não pode depender exclusivamente de potências externas para garantir a sua segurança. O défice acumulado de despesa em defesa por parte dos Estados‑Membros, estimado em 1,8 biliões de euros desde o fim da Guerra Fria (face ao objetivo da NATO de 2% do PIB), ilustra 30 anos de subinvestimento.
Para fazer face a este défice, no ano de 2024 registou-se um aumento dos orçamentos alemão em 44%, do francês em 15% e do italiano em 37%, face a 2023. A Comissão Europeia respondeu igualmente com o programa ReArm Europe, subdividido em 5 etapas destinado a desbloquear até 800 mil milhões de euros em investimentos através de flexibilidade orçamental, parcerias público‑privadas e instrumentos do Banco Europeu de Investimento (BEI). O objetivo? Criar um ecossistema industrial e tecnológico europeu, desde a inovação até à produção, incidindo em áreas/segmentos como drones, ciberdefesa, sistemas de comando e propulsão a hidrogénio (entre outros exemplos).
Programas como o PESCO (Permanent Structured Cooperation; 2017), European Defence Industrial Strategy (2024) e Cyber Resilience Act (2024) e Preparation 2030 Programme (2025) pretendem permitir partilha de competências, harmonizar normas e alcançar economias de escala, preservando simultaneamente a cadeia de decisão no seio da EU com um desafio claro: dispor de uma capacidade operacional autónoma.
A indústria europeia de defesa, uma alavanca económica estratégica, em 2023, gerou um volume de negócios de cerca de 159 mil milhões de euros, mais 16,9% que o ano anterior, as exportações militares europeias aumentaram 12,6% (atingindo 57,4 mil milhões de euros) e empregou cerca de 581 mil trabalhadores espalhados por cerca de 2.500 PMEs. Apesar destes números animadores, o facto é que apenas 12 empresas europeias figuram entre os 50 maiores grupos de defesa mundiais, de acordo com o ranking SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) de 2024.
Perspetivas
De acordo com a consultora americana BCG, empresas fora da cadeia de valor dita “tradicional” da defesa desempenharão um papel importante. A consultora estima em 462 mil milhões a dimensão da oportunidade para contratantes não-de-defesa, ao longo de 4 anos. Adicionalmente, identifica oportunidades (ver Figura 1) para empresas de software e IT, aeroespacial, automóvel, eletrónica, telecomunicações e logística.
Figura 1 – Dimensão do mercado de defesa em 2024 e mercado potencial entre 2026 e 2029 para seis potenciais setores

Fonte: North Atlantic Treaty Organization, BCG, NATO.
Legenda: “defense market” – mercado de defesa; “additional demand” – procura adicional; “Software and IT Systems” – Software e IT; “Aerospace” – Aeroespacial; “Automotive” – Automóvel; “Eletronics” - Eletrónica; “Telecom” - Telemocunicações; “Logistics” - Logística.
Em 2024, estes seis setores totalizavam cerca de 241 mil milhões de euros com a BCG a estimar, até 2029, um adicional de cerca de 221 mil milhões de euros em valor de mercado:
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Software e IT
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Oportunidades: cibersegurança, tecnologias de informação, tecnologias operacionais;
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Total dimensão do mercado (em 2029): cerca de 145 mil milhões de euros; taxa de crescimento de 240% entre 2024-2029;
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Aeroespacial
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Oportunidades: manutenção, reparação e revisão de aeronaves, bem como sistemas e componentes aviónicos;
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Total dimensão do mercado (em 2029): cerca de 102 mil milhões de euros; taxa de crescimento de 190% entre 2024-2029;
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Automóvel
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Oportunidades: capacidades de fabrico escaláveis, experiência em eletrónica automóvel, integração de software;
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Total dimensão do mercado (em 2029): cerca de 85 mil milhões de euros; taxa de crescimento de 270% entre 2024-2029;
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- Eletrónica
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Oportunidades: veículos aéreos não tripulados, componentes aeroespaciais, semicondutores de ponta, sensores, processamento de terras raras;
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Total dimensão do mercado (em 2029): cerca de 65 mil milhões de euros; taxa de crescimento de 250% entre 2024-2029;
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Telecomunicações
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Oportunidades: sistemas de comunicações, data centres, armazenamento cloud, sistemas de navegação para veículos militares;
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Total dimensão do mercado (em 2029): cerca de 45 mil milhões de euros; taxa de crescimento de 260% entre 2024-2029;
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Logística
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Oportunidades: infraestrutura e serviços de armazenagem, formação para o manuseamento de materiais perigosos, transporte de equipamento pesado;
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Total dimensão do mercado (em 2029): cerca de 20 mil milhões de euros; taxa de crescimento de 180% entre 2024-2029.
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Desafios
As divergências económicas e políticas entre os Estados-membros podem atrasar a tomada de decisões. A competição internacional, nomeadamente com os Estados Unidos e a China, está a intensificar-se em todas as frentes. O futuro imediato impõe dois requisitos cruciais: manter o ritmo dos investimentos (públicos e privados) e aprofundar a integração industrial. Os próximos anos deverão permitir medir o impacto real de todas estas iniciativas e programas lançados: redução das importações críticas, quota de mercado nos setores estratégicos e o nível de prontidão operacional das forças comuns.
Numa era de incertezas geopolíticas, a Europa tem a oportunidade de se tornar um contrapeso credível, não recuando, mas fortalecendo-se. A autonomia estratégica deve, assim, ser apresentada como uma ambição e uma oportunidade para moldar a Europa de amanhã.