Hoje, no blogue do Banco Central Europeu foi publicado um artigo intitulado: The AI boom: rational enthusiasm or the next dot-com bubble?
O BCE alerta que a revolução da Inteligência Artificial poderá seguir um padrão histórico familiar, ou seja, um período de euforia nos mercados financeiros, seguido de uma correção dolorosa. A questão não é se a IA vai transformar a economia mas se os investidores estão a sobrevalorizar essa transformação.
A Nova Febre Tecnológica
A Inteligência Artificial tornou-se o principal motor dos mercados financeiros globais. Empresas como NVIDIA, Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta viram as suas avaliações disparar, impulsionadas pela convicção de que a IA poderá ser a tecnologia mais transformadora desde a internet.
Segundo os economistas do BCE, as valorizações das acções norte-americanas encontram-se actualmente próximas dos máximos históricos quando medidas pelo indicador CAPE (Cyclically Adjusted Price-to-Earnings Ratio).
Na Zona Euro, as avaliações também aumentaram, embora de forma mais moderada. O fenómeno reflecte a enorme confiança dos investidores no potencial económico da IA.
Porque é que as Bolhas Acontecem?
Os economistas do BCE apresentam duas explicações principais.
1. A explicação racional
Segundo esta perspectiva, os investidores não estão necessariamente a agir de forma irresponsável. Pelo contrário, estão a tentar avaliar uma tecnologia cujo potencial é praticamente impossível de medir.
Quando surge uma tecnologia revolucionária, os ganhos potenciais parecem ilimitado mesmo que a probabilidade de sucesso seja incerta, os investidores estão dispostos a pagar preços elevados pela possibilidade de participar nessa transformação.
No entanto, existe um paradoxo: mesmo quando a tecnologia cumpre as expectativas, os preços das acções podem acabar por cair porque à medida que uma inovação se torna dominante, o risco passa de estar concentrado numa única empresa para afectar toda a economia, o que aumenta a percepção de risco sistémico e reduz a disposição dos investidores para pagar múltiplos tão elevados.
2. A explicação comportamental
A segunda teoria é menos optimista.
Segundo esta visão, os investidores tornam-se excessivamente confiantes e começam a acreditar que as regras tradicionais de avaliação já não se aplicam. O medo de perder oportunidades leva mais investidores a entrar no mercado, alimentando um ciclo de valorização que pode afastar os preços dos seus fundamentos económicos reais.
Quando a realidade acaba por não corresponder às expectativas, a confiança desaparece rapidamente e as quedas podem ser ainda mais violentas.
O Risco para a Europa
Embora a revolução da IA esteja a ser liderada pelos Estados Unidos, o BCE alerta que a Europa não está imune às suas consequências.
O principal risco não vem necessariamente das empresas tecnológicas europeias, mas da exposição dos investidores europeus às gigantes tecnológicas americanas, conhecidas como Magnificent Seven.
Segundo o BCE, os investidores da Zona Euro possuem centenas de milhares de milhões de euros associados a estas empresas, sobretudo através de fundos de investimento e ETFs. As famílias europeias terão cerca de 440 mil milhões de euros expostos a ações tecnológicas norte-americanas, muitas vezes através de produtos financeiros passivos que replicam índices globais.
Assim, uma queda brusca das tecnológicas norte-americanas teria um impacto directo no património de milhões de investidores europeus.

O Efeito Dominó
O BCE destaca outro factor preocupante: o papel dos fundos de investimento.
Em caso de correção acentuada, muitos investidores podem tentar resgatar o seu dinheiro ao mesmo tempo. Para responder a esses pedidos, os fundos seriam obrigados a vender activos rapidamente, pressionando ainda mais os preços das acções.
Este fenómeno pode criar um ciclo: as acções caem, os investidores entram em pânico, os fundos vendem activos, Os preços caem ainda mais.
Surgem novos resgates.
Desta forma, aquilo que começa como uma simples correção bolsista pode transformar-se num problema de estabilidade financeira mais abrangente.
A Europa está Sobrevalorizada?
Apesar dos riscos, o BCE considera que a situação europeia é relativamente mais equilibrada do que a norte-americana.
As bolsas da Zona Euro continuam a apresentar rácios de valorização bastante inferiores aos dos Estados Unidos. Além disso, o mercado acionista europeu continua dominado por setores tradicionais como indústria, energia, banca e consumo, reduzindo a dependência da euforia associada à IA.
Por outro lado, a adoção da Inteligência Artificial pelas empresas europeias está a aumentar de forma consistente, assim como o investimento em digitalização, sugerindo que existe uma transformação económica real em curso e não apenas especulação financeira.
Conclusão
A mensagem do BCE é simultaneamente optimista e prudente.
A Inteligência Artificial tem potencial para transformar profundamente a produtividade, os negócios e a economia global. Contudo, a história demonstra que mesmo as maiores revoluções tecnológicas costumam passar por períodos de euforia excessiva antes de atingirem uma fase de maturidade.
O mais interessante é que, segundo o BCE, uma correção futura poderá ocorrer independentemente de as avaliações actuais serem racionalmente justificadas ou não. O problema não é a IA em si mas as expectativas quase ilimitadas que os investidores estão a projectar sobre ela.
Consulte artigo do BCE aqui.
Fonte: BCE