Consumo Cíclico – Do Luxo ao Lazer – Será Um Bom Investimento?

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Actualmente, a possibilidade de uma recessão nos Estados Unidos da América é um tema amplamente discutido, gerando incertezas entre os investidores sobre a melhor forma de alocar os seus investimentos e quais os sectores mais adequados para tal.

Apesar deste receio, a taxa de desemprego situa-se actualmente em 4,1%, bastante abaixo da média histórica de 5,7%, apesar de ter vindo a aumentar desde o início do ano.

Simultaneamente, os resultados (earnings) das empresas continuam a apresentar valores positivos acompanhados de previsões favoráveis para o crescimento económico. A principal fonte de instabilidade no mercado, neste momento, é a incerteza em torno da decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, relativamente à imposição (ou não) de tarifas sobre outros países e blocos económicos, incluindo a União Europeia.

Por outro lado, podemos ver o actual movimento no mercado como uma mera correcção, considerando as avaliações já inflaccionadas até à recente queda no mercado americano. Nesse sentido, esta correção acaba por ser um ajuste natural e saudável para a sustentabilidade do mercado no longo prazo.

Não obstante, o mercado continua exposto a alguns riscos, incluindo o risco de uma recessão, o que representaria uma ameaça para todos os sectores; uma maior pressão sobre os dados do emprego; o aumento da inflação e o consequente aumento das taxas de juro; e, por último, haver de facto uma imposição de tarifas a vários países por parte dos Estados Unidos, com potencial retribuição por parte dos mesmos.

 

Desempenho Histórico e Avaliação do Sector de Consumo Cíclico

O sector de consumo cíclico (consumer discretionary) caracteriza-se por incluir bens e serviços cujo consumo varia conforme o ciclo económico. Quando a economia está forte e os consumidores têm mais rendimento disponível, este sector tende a crescer. Em contrapartida, em períodos de recessão, a procura tende a diminuir.

Isto deve-se às características específicas do sector, visto tratarem-se de bens e serviços não essenciais, como automóveis, lazer, viagens, moda, electrodomésticos e entretenimento, cuja procura é sensível ao ciclo económico, resultando em empresas com margens mais voláteis.

O sector tem ficado para trás nos últimos anos devido a uma subida geral das taxas de juro pela Reserva Federal e outros Bancos Centrais, encarecendo o crédito, devido a um nível relativamente elevado da inflação e pressão sobre o consumo. Outro factor que contribuiu para a desvalorização deste sector prende-se com o facto de ter ocorrido uma maior concentração dos investimentos no sector de tecnologia e de inteligência artificial, em virtude do seu elevado crescimento.

Independentemente destes factores, o índice MSCI World Consumer Discretionary (Net Total Return) teve uma performance superior comparativamente ao MSCI World (Net Total Return) desde o início deste século.

 

Figura 1 – Comparação de retornos entre o índice MSCI World Index vs. MSCI World Consumer Discretionary – EUR (últimos 25 anos)

Fonte: Banco Invest. Bloomberg.

Esta tendência persistiu também mais actualmente, nos últimos 10 anos, tendo apenas invertido nos últimos cinco anos, o que se deve, mais uma vez, maioritariamente à contribuição do sector de tecnologia para o índice global.

Figura 2 – Comparação de retornos entre o índice MSCI World Index vs. MSCI World Consumer Discretionary – EUR (últimos 10 anos)

Fonte: Banco Invest. Bloomberg.

 

 

Assumindo uma reversão à tendência histórica, pode existir uma oportunidade no sector do consumo cíclico.

Nesse sentido, podemos observar o rácio de price-to-earnings (indicador financeiro que avalia o valor de uma empresa em relação ao seu lucro), nos últimos 5 anos, do MSCI World Consumer Discretionary (Net Total Return) face à sua média histórica, revelando que o sector, apesar de ter uma performance nos últimos 10 e 25 anos mais elevada que o índice MSCI World (Net Total Return), se encontra actualmente “barato” face à sua média histórica:

 

Figura 3 – Rácio Price-to-Earnings do Índice MSCI World Consumer Discretionary face à media histórica (10 anos)

Fonte: Banco Invest. Bloomberg.

 

De facto, na Figura 3, confirmamos que o rácio price-to-earnings­ do índice de consumo cíclico a nível global se encontra 15% abaixo da média histórica, em 24x face à média de 28x.

A título de exemplo, nos Estados Unidos, o rácio P/E do índice S&P500 Consumer Discretionary tem um desconto de 12% face à sua média histórica, encontrando-se em 29x face à média de 33x:

 

Figura 4 – Rácio Price-to-Earnings do Índice S&P500 Consumer Discretionary face à média histórica (últimos 10 anos)

Fonte: Banco Invest. Bloomberg.

Por último, o índice europeu MSCI Europe Consumer Discretionary é o índice que se encontra mais “barato” comparativamente aos congéneres índices global e norte-americano, não só por ter um price-to-earnings mais baixo (16x), como pelo desconto do rácio de 24% face à média histórica (21x):

 

Figura 5 – Rácio Price-to-Earnings do Índice MSCI Europe Consumer Discretionary face à média histórica (últimos 10 anos)

Fonte: Banco Invest. Bloomberg.

 

Conclusão

Apesar da actual volatilidade no mercado, causada maioritariamente pela incerteza dos investidores em torno de uma guerra comercial a nível global, o sector de consumo cíclico pode representar uma oportunidade, em especial após a recente underperformance relativa. Não obstante a inversão da tendência nos últimos anos, principalmente por causa do crescimento do sector tecnológico, se assumirmos uma reversão para a tendência histórica e considerarmos o facto de que o sector se encontra “barato” face à média histórica, pode existir, de facto, uma oportunidade para adicionar ou reforçar exposição ao sector.

 

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