Ao longo do último ano, os mercados de crédito têm vivido um período particularmente favorável. Os prémios de risco associados à dívida privada encontram-se em níveis historicamente baixos, reflectindo um ambiente em que o crescimento económico, ainda que moderado, e a solidez financeira de muitas empresas têm sido suficientes para sustentar a confiança dos investidores. A isto soma-se a expectativa de uma política monetária gradualmente menos restritiva, que continua a alimentar a procura por rendimento num mundo onde este permanece escasso.
Figura 1 – Evolução dos Spreads de Crédito (IG Global)

Fonte: Bloomberg. Índice Bloomberg Global Agg Corporate Average OAS.
A compressão dos spreads de crédito não é apenas o resultado de um maior optimismo conjuntural, mas é também reflexo de mudanças estruturais no próprio funcionamento dos mercados financeiros. O peso crescente de investidores institucionais com horizontes de longo prazo, a evolução das práticas de gestão de risco e a maior diversidade de fontes de financiamento contribuíram para um mercado com mais profundidade e, em muitos segmentos, com menor volatilidade do que no passado. Neste sentido, prémios de risco mais baixos podem não traduzir necessariamente uma subavaliação generalizada do risco, mas sim uma maior confiança na capacidade do sistema em absorver choques moderados sem disrupções significativas.
Outro sinal ilustrativo deste fenómeno prende-se com o facto de algumas empresas com ratings elevados conseguirem hoje financiar-se a taxas inferiores às de determinados Estados soberanos. Esta ocorrência, que à primeira vista pode parecer contraintuitiva, decorre de vários factores. Por um lado, algumas empresas apresentam balanços sólidos, níveis de endividamento reduzidos e fluxos de caixa previsíveis, ao passo que vários países enfrentam desafios orçamentais, trajectórias de dívida menos favoráveis ou maior incerteza política. Por outro lado, a elevada procura por crédito de qualidade, aliada à escassez relativa deste tipo de emissão, tem pressionado os spreads em baixa, reforçando esta inversão pontual na hierarquia tradicional do risco.
Apesar do referido, um ambiente de crédito tão benigno tem implicações relevantes. À medida que a compensação pelo risco diminui, as diferenças entre crédito de elevada qualidade e crédito mais vulnerável tornam-se menos visíveis nos preços. Esta circunstância pode levar investidores a expandir gradualmente o universo de investimento, incluindo emissões com estruturas mais complexas, menor transparência ou maior sensibilidade ao ciclo económico. O crescimento do crédito privado enquadra-se nesta tendência, na medida em que oferece soluções de financiamento flexíveis e atractivas, mas exige, em contrapartida, uma análise mais detalhada dos riscos envolvidos, sobretudo em termos de liquidez e avaliação.
Do lado dos emitentes, a forte procura por dívida criou condições particularmente favoráveis para o financiamento. Empresas de diversos sectores, incluindo emitentes tradicionalmente menos alavancados como é o caso das tecnológicas, têm aproveitado este contexto para alongar maturidades, refinanciar passivos ou reforçar posições de liquidez. Este comportamento não deve ser interpretado, de forma automática, como um sinal de fragilidade. Em muitos casos, trata-se simplesmente de uma gestão prudente do balanço. Ainda assim, a concentração de novas emissões em determinados segmentos pode tornar o mercado mais sensível a mudanças nas expectativas de crescimento ou nas condições financeiras globais.
Figura 2 – Evolução das Novas Emissões Obrigacionistas das Big Tech

Fonte: Bloomberg.
Para os investidores, o principal desafio não é antecipar uma inversão iminente, mas reconhecer que, num ambiente de spreads comprimidos, o retorno potencial do crédito depende cada vez mais da selecção criteriosa de activos. Diferenças aparentemente pequenas na qualidade do crédito, na estrutura das obrigações ou na liquidez podem traduzir-se em resultados significativamente distintos ao longo do tempo. Mesmo num cenário favorável, a disciplina na análise e a diversificação continuam a ser factores decisivos.
A experiência histórica mostra que períodos prolongados de estabilidade podem persistir, mas também que exigem atenção constante aos detalhes e ao risco de os investidores se tornarem excessivamente complacentes. Num mercado onde a confiança é elevada e o rendimento escasso, compreender onde está (e onde já não está) a compensação pelo risco torna-se um dos exercícios mais importantes para quem investe em crédito.