Vivemos presentemente num “novo normal” de constante instabilidade e tensão geopolítica e fragmentação global, que tem resultado no aumento significativo da incerteza e imprevisibilidade. De acordo com o Instituto de Investigação da Paz de Oslo (PRIO), em 2024, o mundo registou um número recorde, desde 1946, de 61 conflitos (ver Figura 1) marcando o regresso à guerra em grande escala e à instabilidade generalizada.
Figura 1 - Número de conflitos por tipo de conflito entre 1946 e 2024

Fonte: Instituto de Investigação da Paz de Oslo (PRIO).
Legendas: “Number of conflicts” – Número de conflitos; “Colonial conflict” – Conflito colonial; “Civil conflict” – Conflito civil; “Interstate conflict” – Conflito estatal; ”Internationalized civil conflict” – Conflito internacional civil; ”Battle deaths” – Mortes de guerra; ”Battle related deaths” – Mortes relacionadas com guerra.
O Invest Trend “DEFESA E SEGURANÇA” (ver link) visa capitalizar com os temas da defesa e da geopolítica, permitindo obter exposição às oportunidades emergentes num contexto internacional crescentemente volátil, incerto e conflituoso.
Composição do Trend:
-
25% --- LU1822851884 (Finserve Global Security)
-
20% --- FR001400RZ04 (ED Rothschild Global Resilience)
-
20% --- LU2596602628 (Goldman Sachs Global Future Economic Security)
-
20% --- LU0909471251 (UBS Security Equity)
-
15% --- LU2286300988 (Allianz Cyber Security)
O que explica o aumento dos conflitos e instabilidade geopolitica?
Uma das razões está na atual transição para uma nova "ordem global". O período pós-Guerra-Fria viu os Estados Unidos emergirem como a principal potência global. No entanto, esta posição está a ser cada vez mais contestada. Como resultado deste ambiente geopolítico cada vez mais instável, os governos estão a gastar mais na sua própria segurança e defesa nacional. Outro motivo está num bem cada vez mais valioso: as fronteiras. Conflitos como o da Ucrânia e Rússia (com ricochete europeu), India e Paquistão, China e Taiwan, guerra em Gaza entre Israel e Paquistão e mais recentemente a intromissão fronteiriça dos EUA com a Gronelândia. Importante mencionar a mais recente “cisão” entre os EUA e a Europa (com Emmanuel Macron como o líder europeu mais vocal), que se viu obrigada a reverter o subinvestimento das últimas décadas. Nota final, também, para a recente instabilidade civil no Irão.
Programas e Iniciativas: visão geográfica
Após o fim da Guerra Fria, os membros europeus da NATO cortaram drasticamente os seus orçamentos de defesa. No início da década de 1980, estes países gastavam em média cerca de 3,8% do seu PIB em defesa. Ao longo da década de 2010, o gasto militar médio dos membros europeus da NATO e do Canadá foi inferior a 1,5%. Em 2014, os membros da NATO concordaram em passar a gastar, individualmente, 2% ou mais do PIB em defesa. No entanto, em 2021 (início do conflito entre Rússia e Ucrânia) apenas 6 dos 30 membros da NATO gastavam 2% ou mais.
Em resposta à crescente instabilidade geopolítica, os membros europeus da NATO estão a aumentar os gastos em defesa. Em 2024, 23 dos 32 membros da NATO destinaram mais de 2% do PIB à defesa. A aliança estabeleceu, em Junho de 2025, uma meta mais ambiciosa: até 2035 gastarem 5% do PIB em defesa, sendo que 3,5% em capacidades militares convencionais e 1,5% em medidas de resiliência mais amplas (e.g. cibersegurança, segurança de redes). No entretanto, a União Europeia (UE) anunciou o plano ReArm Europe destinado a mobilizar até 800 mil milhões de euros. Em 2024, o total de gastos, global, com defesa ultrapassou os 2,7 biliões de dólares americanos com o Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI) a estimar, em 2030, um crescimento de cerca de 34% para quase 3,5 biliões de dólares americanos (ver Figura 2).
Figura 2 – Despesas com Defesa, perspetiva global, entre 2010 e 2024 com estimativas até 2030

Fonte: SIPRI, NATO.
De facto, o aumento dos gastos em defesa adquiriu uma nova urgência para a Europa e Ásia. Na Europa, o investimento em novas armas e sistemas de armas já está a aumentar. Se os 27 países da UE quiserem atingir a meta de despesa da NATO de 5% do PIB, o bloco teria de gastar mais de 630 mil milhões de euros por ano, comparado com uma estimativa de 381 mil milhões de euros em 2025, segundo a Agência Europeia de Defesa. A constante tensão orçamental entre o aumento dos gastos em defesa e os gastos sociais da Europa provavelmente continuará. Individualmente, a Alemanha deu o primeiro passo: anunciou em Março de 2025 o “Sondervermögen”, um fundo “especial” de investimento destinado a infraestruturas, defesa e outros investimentos a aplicar ao longo de 10 a 12 anos (ver Figura 3).
Figura 3 – Estimativas de gastos, da Alemanha, com defesa e infraestruturas até 2029

Fonte: Bloomberg, German Federal Ministry of Finance, Franklin Templeton.
Legendas: “Infrastructure Spending” – Gastos com infraestruturas; “Defense Spending” – Gastos com defesa.
Na Ásia, um novo governo japonês e o aumento das tensões com a China, devido a Taiwan, são alguns dos exemplos que tornam o aumento dos gastos em defesa uma prioridade. Noutros países, os gastos em defesa da Austrália e da Coreia do Sul deverão igualmente continuar a crescer na ordem dos dígitos mid-single em 2026, de acordo com dados governamentais, fruto do aumento dos riscos na região do Indo-Pacífico e à possível diminuição do envolvimento dos EUA (ver Figura 4). Os conglomerados japoneses e os grandes fabricantes sul-coreanos de equipamentos de defesa deverão ser os mais beneficiados.
Figura 4 – Gastos em Defesa na região asiática entre 2014 e 2024, por país

Fonte: SPIRI, Franklin Templeton.
Contudo, os EUA não ficam para trás. Para que a administração dos EUA cumpra os objetivos políticos definidos na sua recente “Estratégia de Segurança Nacional”, incluindo reafirmar-se no Hemisfério Ocidental, é expectável que os gastos com defesa continuem a aumentar. O recentemente proposto orçamento de defesa, de 1,5 biliões de dólares americanos, é quase o dobro dos níveis estimados para 2025 pela NATO (ver Figura 5) à data de Junho de 2025. Contudo paira a incerteza sobre a real extensão dos gastos, caso os democratas ganhem a Câmara dos Representantes nas eleições intercalares de Novembro de 2026.
Figura 5 – Despesas com defesa dos EUA versus excluindo os EUA, entre 2014-2023 e estimativas para 2024 e 2025

Fonte: NATO, Franklin Templeton.
Numa perspetiva per capita, em 2024 de acordo com o Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI), são de facto as nações mais pequenas a gastar mais em defesa quando comparativamente a potencias militares como EUA e China (ver Figura 6). Alguns exemplos são Israel, que ocupa o primeiro lugar, seguido de Singapura e Arábia Saudita. Numa perspetiva europeia, vemos países como Noruega, Dinamarca e Holanda. Os EUA ocupam o segundo lugar numa perspetiva per capita com quase 2900 dólares gastos por pessoa e a China, por outro lado, bastante abaixo, com cerca de 221 dólares per capita, apesar de um gasto total de mais de 300 mil milhões de dólares.
Figura 6 – Despesa com Defesa, per capita, por geografia em 2024

Fonte: SIPRI, World Bank, NATO, Visual Capitalist.
Oportunidades e Segmentos
A indústria global de defesa está de facto a entrar num superciclo, com um pivô estrutural para capacidades militares tecnológicas. As nações em todo o mundo estão a avançar rapidamente para além dos sistemas tradicionais de armas, com fortes investimentos em plataformas autónomas, sistemas de comando e controlo alimentados por IA, e arquiteturas sofisticadas de defesa cibernética concebidas para a velocidade, precisão e adaptabilidade que a guerra moderna exige. Factual é que a tecnologia continua pouco penetrada no setor da defesa, apontando para um longo caminho de crescimento nos próximos anos.
(A) Drones, Sistemas Autónomos e Não Tripulados
Baratos, rápidos e letais: os Drones estão a remodelar a dinâmica da Defesa, forçando nações a repensar a estratégia e ciclos de aquisição. Os avanços tecnológicos recentes tornaram os sistemas de drones mais sofisticados e acessíveis, permitindo-lhes competir com aparelhos de defesa muito mais dispendiosos, nivelando assim o campo de jogo a favor de combatentes menos dotados. Hoje, Drones que custam apenas 500 dólares podem neutralizar eficazmente peças de artilharia no valor de milhões de dólares. A Fortune Business Insights estima, numa perspetiva global, um crescimento deste mercado, até 2030, a uma taxa de anual composta de 12,2% para 45,2 mil milhões de dólares americanos (ver Figura 7).
Figura 7 – Dimensão do mercado global de Drones, em 2023, com estimativas para 2030

Fonte: Fortune Business Insights, NATO.
Países como os EUA e a Suécia vieram a público mencionar o quão crucial este segmento pode ser para a sua segurança e defesa. No dia 12 de Janeiro de 2026, a Suécia anunciou que vai gastar 437 milhões de dólares em sistemas de drones não tripulados, incluindo drones de ataque de longo alcance, sistemas de guerra eletrónica e drones de vigilância, bem como drones de vigilância marinha e varredura de minas. No “The Big Beautiful Bill” de Trump, estão dezenas de milhares de milhões de dólares destinados a gastos em drones, com a legislação a incluir cerca de 150 mil milhões de dólares para o Departamento de Defesa investir em sistemas inovadores de drones.
(B) Cybersecurity
À medida que a tecnologia continua a evoluir e a penetrar todos os aspectos das nossas vidas, a necessidade de proteger os activos digitais nunca foi tão urgente. Nos últimos anos, tem-se verificado uma tendência notória de aumento das preocupações e actividades de cibersegurança. Esta tendência é impulsionada por vários factores, incluindo, a rápida transformação digital, a mudança para o trabalho remoto desde a pandemia, o crescente escrutínio regulamentar sobre a proteção de dados e a crescente sofisticação e frequência dos ciberataques, entre outros. Paralelamente, assistimos a um aumento na sofisticação e frequência dos ataques cibernéticos, tornando a cibersegurança uma preocupação crítica para empresas e governos.
De acordo com a empresa americana de investigação e consultoria Gartner Inc., segmentos como serviços de Segurança Empresarial, Software de Segurança Empresarial, Segurança de Redes Empresarial e Software de Segurança do Consumidor deverão registar, entre 2024 e 2029 (ver Figura 8), o maior crescimento num agregado de cerca de 11% de taxa de crescimento anual composta para um total de 324 mil milhões de dólares americanos. O 2º segmento mencionado anteriormente registará o maior crescimento, com cerca de 13% de taxa de crescimento anual composta.
Figura 8 – Dimensão de mercado dos 4 principais segmentos de Cibersegurança, com estimativas até 2029

Fonte: Gartner, Banco Invest.
Riscos e Desafios
A transição para uma ordem internacional mais fragmentada está a criar um conjunto complexo de riscos e desafios que afectam governos, alianças estratégicas, empresas e cidadãos. Levantam-se questões como:
-
Aumento da pressão orçamental e sustentabilidade da despesa com defesa;
-
Escalada tecnológica e ameaças assimétricas;
-
Erosão do consenso transatlântico e a competição entre grandes potências;
-
Crescimento exponencial dos ataques cibernéticos;
-
Capacidade industrial insuficiente para o novo ciclo de defesa;
-
Com o aumento de conflitos intraestatais e civis, poderemos assistir a crises humanitárias mais frequentes, fluxos migratórios e instabilidade política interna;
-
Política interna de grandes potências adiciona uma camada extra de imprevisibilidade;
-
Transição energética aumenta a importância de lítio, terras raras e microchips, intensificando a geopolítica dos recursos.
Conclusão
Apesar da forte valorização em bolsa das empresas do sector da defesa, registada nos últimos meses, os gastos governamentais antecipados nos próximos anos deverão continuar a suportar os resultados das empresas do sector, mesmo num contexto de diminuição das actuais tensões geopolíticas. Com efeito, nos próximos anos, os governos continuarão pressionados para aumentar os seus orçamentos com defesa, após anos de subinvestimento.