Dívida Pública EUA ultrapassa PIB do País, devemos estar preocupados?

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A dívida pública dos Estados Unidos não é exactamente o "apocalipse" que muitos pessimistas pintam mas também não é algo irrelevante.

Os Estados Unidos têm vantagens únicas que permitem atingir níveis elevados de endividamento, que seriam catastróficos para a maioria dos outros países mas a trajectória actual, cria riscos reais no longo prazo. 

Quanto é que os Estados Unidos afinal deve?


A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou o Produto Interno Bruto do país, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, marcando um aumento acentuado na carga fiscal do governo.

A dívida pública era de 31,27 biliões de dólares no final de Abril, ultrapassando o PIB dos EUA de 31,22 biliões de dólares entre Abril de 2025 e Março de 2026.

Assim, a dívida em percentagem do PIB é de 100,2% comparado com 99,5% no ano fiscal, que terminou no dia 30 de Setembro, superando largamente a média histórica de 51,2%.

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O Congressional Budget Office prevê que, sem grandes mudanças, a dívida pública norte-americana vai disparar para $53 biliões até 2036, ou seja, 70% acima dos níveis actuais, colocando os Estados Unidos num caminho "insustentável", segundo alguns especialistas.

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Esta foi a evolução da dívida EUA sob cada Presidente norte-americana desde 1981.

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A Identidade Contabilística que Ninguém Menciona


Por definição, se o governo recebe capital emprestado de alguém, esse capital precisa de fluir para algum lugar.
Esse "lugar" é o balanço patrimonial do sector privado.

A economista Wynne Godley formalizou essa relação no que hoje é chamado de identidade dos saldos sectoriais.

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 Por outras palavras, numa economia fechada, o déficit de um sector representa o superávit de outro.

Cada dólar que o governo federal gasta acima do que arrecada em impostos, é um dólar que se manifesta como riqueza financeira líquida nos sectores privado ou estrangeiro. 

As dívidas financiam despesas, que se transformam em rendimentos para as famílias e empresas, sustentando a actividade económica. Na verdade, os déficits muitas vezes estabilizam a economia durante recessões, fornecendo liquidez ao sector privado e ajudando a recuperar os balanços patrimoniais.

Por exemplo, sempre que o déficit público aumentou, como durante a recessão de 2001, a crise de 2008 e a pandemia de 2020, o superávit do sector privado expandiu-se em proporção quase igual.

Essa correlação inversa não é coincidência; trata-se da identidade em acção. 

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O Balanço Patrimonial Que Todos Ignoram


Antes de analisarmos os números, vamos considerar o seguinte exemplo:

Um trabalhador que ganha $100 mil por ano e tem uma hipoteca de $300 mil. Segundo os pessimistas, esta pessoa está numa situação grave de insolvência, já que a sua dívida é o triplo do rendimento anual mas nenhum banqueiro nos Estados Unidos consideraria essa família falida.

Porquê? A sua hipoteca é garantida por um activo. Se presumirmos que essa pessoa deu uma entrada de 20% na compra da casa, o imóvel vale cerca de $360 mil. Com um rendimento estável e provavelmente crescente, o pagamento mensal da prestação está dentro do seu alcance. O rácio entre a dívida e rendimento, fora de contexto, não diz quase nada.

O que importa é o activo do outro lado do balança, a confiabilidade do fluxo de rendimento e a capacidade de honrar a obrigação.

O governo federal dos EUA não é diferente...

Os pessimistas em relação aos níveis de endividamento tratam a dívida do governo norte-americano como um passivo sem um activo correspondente.

O Relatório Financeiro do Governo dos Estados Unidos para o ano fiscal de 2024 apresenta $5,7 biliões em activos no balanço patrimonial, incluindo caixa, empréstimos a receber, propriedades e equipamentos, contra $45,5 biliões em passivos totais, resultando num património líquido negativo. 

Contudo, o balanço exclui alguns activos do governo que valem muitos biliões de dólares, como terrenos e infrastuturas militares, entre outros:

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A dívida federal total atingiu $37,6 biliões no final do ano fiscal de 2025. Com isso em mente, a melhor analogia não é "dívida versus rendimento", mas sim a relação entre uma base de activos crescente, um fluxo de receita confiável e o custo de manutenção da dívida.

Nessa perspectiva, os EUA parecem estar alavancados, e não insolventes.


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Pessimistas não estão 100% Errados


É claro que uma dívida elevada também tem as seguintes desvantagens:

➡️ Custo dos Juros: É uma das maiores despesas do orçamento porque desvia recursos do investimento público. 

➡️ Risco de Inflação: Imprimir dinheiro para pagar dívida gera inflação (imposto invisível). Ou, se a confiança cair, os juros sobem mais, criando um espiral.

➡️ Efeito Crowding Out: Dívida alta pode elevar os juros, reduzindo o crédito privado e crescimento.

➡️ Trajectória insustentável: Projeções revelam um risco de chegar a mais de 100% do PIB em anos sem ajuste fiscal.



Conclusão

 

Dívida pública é uma ferramenta, não é vilã nem salvadora.

O erro dos pessimistas catastrofistas é tratá~la como dívida familiar. O erro dos optimistas excessivos é achar que "imprime resolve".

O equilíbrio está na sustentabilidade, ou seja, a dívida ao serviço do crescimento com disciplina fiscal. 

 

Fonte: Congressional Budget Office, Vizualytiks

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