O ano de 2025 foi particularmente atribulado para o dólar norte-americano. Entre a constante ameaça de tarifas, a expectativa de cortes nas taxas de juro pela Reserva Federal (Fed), a incerteza quanto à independência deste organismo, e a percepção de instabilidade fiscal causada pela One Big Beautiful Bill, os investidores perderam a visibilidade sobre o rumo da moeda.
A incerteza que marcou 2025 persiste no início de 2026, levando os investidores globais a questionar que alternativas existem para acomodar a volatilidade do dólar e do mercado accionista.
Projecções de Crescimento
A 19 de Janeiro de 2026, o FMI divulgou as perspectivas de crescimento para as diversas economias mundiais, para o presente e próximo ano.
A previsão para o crescimento dos diversos países emergentes e economias em desenvolvimento é de 4,2% em 2026. Para 2027, a projecção recua ligeiramente para 4,1%.
Tabela 1. Projecções De Crescimento – World Economic Outlook – Economias Emergentes
Fonte: FMI. Dados a 19.01.2026.
Entre as principais economias avançadas, os Estados Unidos apresentam o crescimento esperado para 2026 e 2027 mais elevado, projectado em 2,4% e 2,0%, respectivamente.
Se de facto o crescimento abrandar na primeira metade de 2026 (expectativa relatada por alguns analistas – Morgan Stanley Research – 2026 US Economics Outlook, OCDE, entre outros), a pressão negativa sobre a moeda norte-americana tenderá a persistir, fazendo com que a depreciação do dólar se prolongue ao longo deste ano.
Tabela 2. Projecções De Crescimento – World Economic Outlook – Economias Avançadas

Fonte: FMI. Dados a 19.01.2026.
Perspectivas Para o Dólar Norte-Americano
O dólar começou 2025 em níveis superiores ao seu valor implícito, considerando exclusivamente a sua relação histórica com o diferencial das taxas de juro a dois anos. Ao longo do ano passado vimos a cotação do EUR/USD a convergir com a cotação implícita pelo diferencial, encontrando-se agora mais próxima do fair value.
Gráfico 1: Diferencial das Taxas de Juro a Dois Anos – EUR/USD

Fonte: Banco Invest. Bloomberg. Dados a 23 de Janeiro de 2026.
Observando o diferencial das taxas de juro nos últimos 10 anos versus a cotação do EUR/USD, verificamos que os movimentos podem ser mais extremos do que apenas um ajustamento de acordo com o diferencial das taxas de juro, como foi o caso em 2017 e 2019.
Se a esse facto acrescentarmos a incerteza existente relativamente à independência da Fed, às perspectivas (ou ausência das mesmas) relativamente às tarifas e à pressão de Trump quanto a baixar as taxas de juro, o potencial para o dólar continuar a depreciar não deve ser ignorado. Paralelamente, observa‑se um crescimento do potencial desinvestimento europeu nos Estados Unidos.
Além disso, o país enfrenta défices persistentes, agravados por políticas fiscais expansionistas que têm fragilizado a confiança dos investidores no dólar.
Segundo a Morningstar, foi ainda observado um aumento da cobertura cambial (ou hedging) por parte dos investidores nas suas posições em dólares, o que também reduz a procura estrutural por USD.
Taxas De Juro Reais
Desde que entrou na Casa Branca, o presidente norte-americano tem vindo a pressionar o Chair da Fed, Jerome Powell, para que este corte as taxas de juro, sem o sucesso que desejava.
Como o mandato de Powell acaba este ano, no dia 15 de Maio, o presidente tinha diversos candidatos em mente para nomear para a posição de Chair da Fed.
A opção mais provável de assumir o cargo é Kevin Warsh (Ex-Governador do Conselho de Governadores da Fed), que revela algum alinhamento com as preferências políticas da administração, apesar de não defender necessariamente cortes da taxa de juro com a mesma veemência que Trump. Hoje, a 30 de Janeiro, Donald Trump nomeou Kevin Warsh como novo Chair da Fed. Se o Senado aprovar a nomeação, Warsh deverá assumir o cargo em Maio de 2026.
As taxas de juro nos Estados Unidos encontram-se actualmente entre o intervalo de 3,50% a 3,75%. Com a inflação nos 2,70%, as actuais taxas de juro reais encontram-se perto de 1%. Entretanto, de acordo com as taxas implícitas no mercado monetário, espera-se que a Fed corte as taxas para os 3,0%, até ao final de 2026.
Em comparação, a média das taxas de juro reais dos países emergentes apresentados na tabela (os países emergentes com maior exposição em índices de dívida emergente em moeda local) encontra-se quase 3 p.p. acima, perto dos 4%.
A Malásia, com a taxa de juro real mais baixa, encontra-se um pouco acima de 1%, e o Brasil, com a taxa de juro real mais elevada, perto dos 11%.
Com o dólar a perder atractividade e as taxas de juro de muitos países emergentes em níveis interessantes, a tendência poderá ser de os investidores aumentarem a exposição a outras moedas, conduzindo à sua apreciação face ao dólar.
Tabela 3: Taxas de Juro Reais

Fonte: Banco Invest. Trading Economics. Dados a 23 de Janeiro de 2026.
Porquê dívida emergente em moeda local?
A yield‑to‑maturity, em moeda local, do índice Emerging Markets Local Currency Government Universal ex‑China encontra‑se actualmente em 6,3%, um nível historicamente atractivo. Para referência, o índice atingiu o seu máximo histórico em 31 de Julho de 2008, nos 8,70%, e o mínimo histórico em 31 de Julho de 2020, nos 3,87%. Como tal, um investidor que esteja exposto a dívida emergente em moeda local, para além de diversificar geograficamente, poderá beneficiar de uma yield-to-maturity historicamente ainda elevada, e com potencial para aumentar a yield média de uma carteira de obrigações.
Gráfico 2: Yield Mercados Emergentes – Moeda Local (Dívida Governamental)
Fonte: Bloomberg. Dados a 28 de Janeiro de 2026.
Poderá também beneficiar da possível apreciação das moedas destes países, sustentada por taxas de juro reais atractivas, pela depreciação do dólar e por perspectivas de crescimento bastante positivas, em média,
Não obstante é necessário considerar os riscos associados, nomeadamente o risco cambial, uma vez que que movimentos adversos das moedas emergentes podem atenuar ou anular o retorno do investimento. Adicionalmente, em determinados mercados, os riscos políticos e geopolíticos continuam a ser estruturais em certos mercados, o que pode resultar em maior volatilidade. O risco de duration também é relevante, sobretudo caso a inflação nos mercados emergentes surpreenda pela positiva. Assim, uma abordagem selectiva e preferencialmente activa revela‑se essencial para mitigar riscos idiossincráticos e maximizar os benefícios desta classe de activos.
Concluindo, a dívida emergente (em moeda local) é uma alternativa interessante num contexto em que as yields dos mercados desenvolvidos se encontram pressionadas. Os actuais níveis da yield, perto de níveis historicamente elevados, potenciam a subida da yield média das carteiras de obrigações, cujos retornos podem beneficiar igualmente da apreciação cambial.
Embora os riscos associados (cambiais, políticos e de duration) não devam ser ignorados, uma abordagem activa e selectiva permite gerir a volatilidade e capturar valor, reforçando o papel desta classe de activos como complemento a uma carteira obrigacionista bem diversificada.