No dia 28 de Fevereiro, os Estados Unidos e Israel desencadearam uma ofensiva militar de larga escala contra o Irão, atingindo alvos estratégicos, centros de comando e figuras de topo do regime iraniano. Entre os atingidos encontrava‑se o próprio Líder Supremo, Ali Khamenei, cuja morte viria a ser confirmada por diversas fontes internacionais. O Irão reagiu com rapidez, lançando mísseis contra Israel e contra bases norte‑americanas espalhadas pelo Golfo, num dos episódios mais intensos de hostilidade aberta das últimas décadas. Esta escalada ocorreu após semanas de negociações nucleares falhadas e sinais públicos de frustração por parte da Administração norte-americana, num contexto em que Israel e a Arábia Saudita pressionavam Washington a adoptar uma postura mais dura perante Teerão.
Para os mercados, o impacto inicial de um choque geopolítico depende não tanto da extensão do conflito, mas mais das suas repercussões económicas directas. A história oferece paralelos, como foi o caso em 1990, quando o Iraque invadiu o Kuwait. Após a invasão, o preço do petróleo duplicou e o S&P 500 entrou em bear market, com uma recessão a manifestar‑se de seguida.
Figura 1 – Evolução do Preço do Petróleo e do S&P 500 durante a Invasão do Kuwait

Fonte: Bloomberg, DWS Investment.
Hoje, embora a economia mundial se encontre mais interligada e dependente de cadeias de abastecimento globais, o Irão tem relativamente pouco peso nessas cadeias. Assim, o principal canal de transmissão do choque para os mercados continua a ser o petróleo.
O Irão representa cerca de 4% da produção mundial de crude, num mercado caracterizado por uma elasticidade extremamente baixa no curto prazo. Qualquer interrupção significativa provocará inevitavelmente movimentos bruscos nos preços. A OPEP dispõe de alguma capacidade excedentária, mas que pode revelar-se insuficiente para compensar na totalidade uma quebra prolongada na produção iraniana. Contudo, o verdadeiro elemento de risco sistémico não se prende com a produção em si, mas com o Estreito de Ormuz, uma via marítima pela qual passa diariamente cerca de 20% do petróleo mundial, bem como 20% do GNL.
Figura 2 – Activos Energéticos da Região do Golfo

Fonte: Bloomberg NEF.
Qualquer obstrução, seja através de minas, ataques a navios, retirada voluntária de operadores ou simples receio de escalada, tem repercussões muito profundas nos mercados energéticos e, por extensão, na inflação a nível global. Nos últimos meses, algumas embarcações já tinham vindo a adoptar uma postura mais cautelosa na região, sendo que o Irão chegou mesmo a emitir avisos alguns para que navios evitassem o estreito.
Os possíveis cenários variam entre as perturbações moderadas e um bloqueio total e prolongado. No caso de uma perturbação parcial do trânsito marítimo, algumas das principais consequências serão a subida dos custos de transporte, a necessidade de escoltas militares, a retirada temporária de navios e uma supressão efectiva da oferta global, contribuindo para a subida do preço do crude.
Figura 3 – Evolução do Preço do Crude WTI

Fonte: Bloomberg.
Numa situação extrema, de encerramento prolongado do Estreito de Ormuz, o potencial disruptivo é maior, podendo levar à retirada do mercado de cerca de 20% da oferta mundial, elevando de forma persistente o preço do petróleo, encarecendo fertilizantes e amplificando pressões inflacionistas no mundo inteiro.
Perante estes cenários, o impacto é distinto consoante a classe de activos em causa. Os activos e moedas de refúgio, como o ouro, o dólar norte-americano e o franco suíço, tendem a beneficiar com a maior aversão ao risco. Por outro lado, as moedas emergentes, especialmente as de países importadores de energia, tendem a ser penalizadas.
No mercado accionista, a reacção inicial foi vincadamente negativa, mas a história sugere que, uma vez estabilizado o conflito e reduzida a pressão sobre o petróleo, os mercados tendem a recuperar gradualmente, conforme evidenciado pela Figura 1, que ilustra a evolução do S&P 500 durante a invasão do Kuwait.
Nas Obrigações, o agravamento das tensões no Médio Oriente produziu efeitos diferenciados. No caso da dívida soberana, a possibilidade de um aumento persistente do preço do crude reacende o risco de pressões inflacionistas, contribuindo para yields mais elevadas. Já na dívida privada, perante um ambiente de maior incerteza geopolítica, os investidores tornam‑se mais selectivos e exigem prémios de risco superiores, provocando um alargamento dos spreads de crédito, mais evidente nos emitentes com exposição directa a custos energéticos acrescidos.
Para os investidores, esta conjuntura reforça não só a importância da diversificação e de uma visão de médio-longo prazo, como também da monitorização regular do risco geopolítico. Num ambiente em que a política internacional volta a assumir um peso decisivo nos mercados, a disciplina e a gestão do risco tornam‑se ainda mais essenciais. Embora os mercados registem desempenhos variados em períodos de conflito, a história mostra que o mercado accionista tende a apresentar capacidade de recuperação, sublinhando a importância de estar investido ao longo do ciclo.
Figura 4 – Evolução do Índice S&P 500 e Eventos Geopolíticos de Relevo

Fonte: First Trust, S&P CapIQ. Bloomberg.