O índice S&P 500 está praticamente inalterado há dois meses. Não sobe com força mas também não cai.
Esta lateralização não é coincidência: os investidores estão em compasso de espera.
De um lado, existe uma expectativa de lucros extremamente optimista, impulsionada pela inteligência artificial. Do outro, crescem os sinais de especulação excessiva.
A grande pergunta que paira sobre o mercado agora é simples, a revolução da IA irá conseguir obter os retornos que justificam os preços actuais? Ou estamos no fim do ciclo?
Sinais clássicos de bolha estão piscando
De acordo com a Bloomberg, vários indicadores tradicionais de bolha estão em modo alerta.
O mais preocupante deles é o endividamento em margem (margin debt) nos Estados Unidos, que subiu 49% em relação ao ano anterior, atingindo um recorde histórico em Junho.

Mesmo considerando o crescimento natural do mercado ao longo dos anos, o nível actual de alavancagem está comparável aos picos observados antes das grandes quedas de 2021 e da bolha das dotcom.
Historicamente, o margin debt costuma atingir o máximo próximo dos topos de mercado, embora só seja possível identificá-los com clareza após a queda já ter acontecido.
Outro sinal de alerta é a concentração extrema do índice S&P 500.
A tecnologia chegou a representar 40% do benchmark, o que é um novo recorde histórico e significa que o desempenho do índice depende cada vez mais de poucas empresas.
Este fenômeno não se limita aos Estados Unidos. A narrativa da IA está dominando tanto acções quanto mercados de dívida em todo o mundo. Além disso, os ETFs alavancados também cresceram rapidamente.
Porque desta vez poderá ser diferente (ou não)?
Ao contrário da bolha das dotcom no final dos anos 90, as grandes empresas de tecnologia hoje já são altamente lucrativas. Não são startups que queimam dinheiro prometendo lucros no futuro distante.
Microsoft, Google, Meta, Amazon e Nvidia já geram milhões em lucro.
O problema, no entanto, não é a lucratividade actual mas a capacidade de transformar os biliões de dólares investidos em infraestrutura de IA em retornos reais e sustentáveis para os accionistas.
À medida que os gastos com IA espalham-se pelo sector e a concorrência aumenta, fica mais difícil para todas as empresas saírem vitoriosas. Haverá vencedores e perdedores e o mercado, mais cedo ou mais tarde, vai parar de recompensar quem apenas gasta muito e vai começar a compensar quem realmente consegue gerar retornos sobre esse investimento.
Momento da verdade chegou!
A época de resultados do segundo trimestre será o teste mais importante dos próximos meses.
Na Quarta-feira, dia 22 de Julho, a Alphabet (Google) e Tesla arrancam a época de resultados das big techs. Na semana seguinte será a vez da Microsoft, Meta no dia 29 e Apple e Amazon no dia seguinte. A Nvidia só revela as suas contas no dia 26 de Agosto.
Juntas, estas seis empresas representam mais de 25% do S&P 500. 
"Magníficas Sete" ainda são as principais contribuidoras para o crescimento dos lucros do S&P 500?
Wall Street prevê que as grandes empresas tecnológicas tenham um crescimento dos lucros de 31,1%, em termos homólogos, no segundo trimestre, superando o resto do mercado em quase dois dígitos.
De acordo com as estimativas da FactSet, espera-se que os lucros do índice S&P 493 aumentem em 22,8% em comparação com o ano anterior. Isto por si só representaria a taxa mais elevada desde o final de 2021 mas mesmo assim não será suficiente para acompanhar as Big Techs.
O grupo das Magníficas 7, no seu conjunto, está relativamente estável este ano enquanto o índice S&P 500, com ponderação igual, subiu mais de 10%.

Na verdade, quatro dos cinco principais contribuintes para o crescimento dos lucros do S&P 500 no segundo trimestre de 2026 não são empresas "Magnificent 7" como a Micron Technology, Chevron, Exxon Mobil e Broadcom.
A Nvidia é a única empresa das "Magníficas 7" que também é uma das 5 maiores contribuidoras para o crescimento dos lucros no segundo trimestre de 2026.
No geral, a Micron Technology e a Nvidia são os dois principais contribuintes para o crescimento homólogo dos lucros do índice S&P 500 no segundo trimestre de 2026. Se essas duas empresas fossem excluídas, a taxa de crescimento dos lucros combinados do S&P 500 para o segundo trimestre desce para 16,8% de 24,7%.

Os analistas preveem um crescimento dos lucros de 31,8% para os Magnificent 7 no terceiro trimestre face a 25,5% para o resto do grupo.
No quarto trimestre, esta situação inverte-se porque espera-se que o índice S&P 493 apresente um crescimento dos lucros de 25,3%, em comparação com 22,8% para as grandes empresas tecnológicas.

Até agora, as big techs têm conseguido apresentar resultados fortes o suficiente para apoiar a narrativa da Inteligência Artificial.
Contudo, o mercado está entrando numa fase mais exigente: não basta prometer que a IA vai mudar o mundo.
É preciso começar a mostrar que ela também muda o lucro por acção de forma consistente e duradoura.
Fonte: Bloomberg, Citadel Securities, Earnings Whisper, FactSet