Outlook 2º Trimestre 2026 - Alocação de Activos

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O conflito militar em larga escala entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão veio adicionar ainda mais incerteza e volatilidade aos mercados financeiros. Até esta data, o principal impacto fez-se sentir na forte subida dos preços da energia, nomeadamente do petróleo e do gás natural, com potencial para desencadear a pior crise energética das últimas décadas. De forma indirecta, a subida dos preços da energia ameaça propagar-se a todos os sectores da economia, por via da disrupção das cadeias de abastecimento globais e do aumento dos custos de transporte. Neste cenário, os Bancos Centrais confrontam-se com um dilema inesperado até há poucas semanas, com os mercados a descontarem agora a possibilidade de aumentos de taxas de juro, por forma a combater a aceleração da inflação, caso o conflito no Médio Oriente se prolongue no tempo.

Global Economic Policy Uncertainty e Volatilidade (VIX)

Fonte: Bloomberg.

A duração da guerra entre o Irão, Israel e os Estados Unidos é, pois, o factor determinante para avaliar a gravidade da potencial crise económica. A OCDE prevê um crescimento global de 2,9% para 2026. Porém, um conflito sustentado pode reduzir esta previsão de forma significativa. Simultaneamente, o prolongamento da guerra pode traduzir-se no aumento da inflação, ameaçando a economia global com o cenário de estagflação – estagnação económica com os preços a subir.

Contudo, nem tudo são más notícias. Com efeito, a história sugere que a geopolítica e os eventos militares tendem a ter um efeito limitado, na dimensão e no tempo, nos preços dos activos financeiros. Por outro lado, nos primeiros meses do ano, antes do início da guerra, a economia global mostrava sinais de aceleração, suportado pelo consumo resiliente e pelo aumento do investimento em Inteligência Artificial, nos Estados Unidos, e em Autonomia Estratégica, na Europa, nomeadamente infraestruturas e defesa.

Assim, apesar da incerteza e volatilidade mantemos uma visão relativamente construtiva para o restante do ano. Entre as Acções, as avaliações do mercado norte-americano melhoraram e existem alternativas interessantes noutras regiões, em especial nos mercados emergentes. Por sua vez, entre as Obrigações, após os recentes aumentos dos spreads de crédito voltamos a identificar valor, de forma selectiva, na dívida privada

 

Mercados no 1º Trimestre de 2026

Desde o início do ano, nos Estados Unidos, os índices S&P-500 e Nasdaq-100 registaram perdas de -4,6% e -6,0%, em USD, respectivamente. Considerando os índices S&P-500 sectoriais, os ganhos foram liderados pelos sectores de Energia (+37,2%), Materiais (+9,3%) e Utilities (+7,5%). Entre as piores performances, destaque para os sectores Financeiro (-9,8%), Consumo Discricionário (-9,3%) e Tecnologia de Informação (-9,3%).

Por sua vez, na Europa, os índices Stoxx-600 e EuroStoxx-50 registaram variações de -1,5% e -3,8%, respectivamente. Em Portugal, o índice PSI registou ganhos de 10,5%, mantendo a outperformance dos últimos meses.

Rendibilidades – 2026 YTD

Fonte: Bloomberg. Cotações em 31-Mar-2026.

Entre os mercados emergentes (-0,5%, medido pelo índice MSCI Emerging Markets, em USD), o destaque recai sobre o mercado brasileiro (Ibovespa), com uma subida de 22,8%, em USD. Entre os mercados sul-americanos, importa ainda realçar o desempenho do mercado mexicano (S&P/BMV IPC), com uma valorização de 6,9% (em USD).

Entre os mercados de Dívida Pública, nos Estados Unidos, as yields dos Treasuries a 2 e 10 anos subiram 32 e 15 bp, para os 3,79% e 4,32%, respectivamente. Deste modo, a inclinação da yield curve diminuiu durante o trimestre, dos 69 bp para os 52 bp. Entre outros factores, o mercado continua a revelar preocupação com a sustentabilidade da dívida pública no longo prazo, bem como com um possível ressurgimento da inflação, nomeadamente, devido às pressões sobre os preços da energia decorrentes da actual situação no Médio Oriente.

Por sua vez, na Zona Euro, as yields dos Bunds alemães a 2 e 10 anos variaram +49 bp e +15 bp, para os 2,62% e 3,00%, respectivamente. Na Alemanha, o diferencial de yields entre estes dois prazos cifrou-se em 38 bp.

Yields da Dívida Soberana

Fonte: Bloomberg. Yields dos índices US Treasuries e Euro Agg Government (maturidades médias de 7,7 e 6,0 anos).

Nos segmentos de dívida privada, desde o início do ano, os spreads de crédito do High Yield alargaram 109 bp na Europa e 69 bp nos Estados Unidos, para os 353 bp e 385 bp, respectivamente. No segmento de Investment Grade, as variações foram menos expressivas, com os spreads de crédito a situarem-se nos 71 bp (+21 bp) e 63 bp (+13 bp), respectivamente. Deste modo, conjugando a evolução das yields e dos spreads de crédito, os índices globais de High Yield e Investment Grade variaram -1,3% e -0,6%, em EUR, no trimestre.

Nos mercados cambiais, o USD ganhou 1,7% contra o EUR e 1,3% contra o JPY no primeiro trimestre. Em parte, a apreciação do dólar foi impulsionada pelo aumento da procura por activos de refúgio após a eclosão da guerra no Irão, num trimestre que ficou marcado pelo agravamento das tensões geopolíticas.

Por fim, desde o início do ano, os preços das matérias-primas apresentaram um ganho médio de +35,9%, medido pelo índice S&P GSCI Spot, em USD. O destaque recai sobre a Energia (+70,6%), em particular, o Petróleo, com a cotação do barril de Brent a registar uma subida de +94,5%. Este movimento resulta da crescente tensão no Médio Oriente e interrupções de passagem no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do abastecimento global.

 

Outlook 2º Trimestre

Apesar da incerteza quanto à duração e impacto da guerra no Médio Oriente na economia global, em particular, na evolução dos preços, as expectativas para a taxa de inflação permanecem ancoradas entre os 2,0% e os 2,5%, de acordo com as taxas de juro a prazo (taxas a 5 anos, forward 5 anos). Deste modo, sobretudo nos Estados Unidos, continuamos a ver potencial para a Reserva Federal (FED) cortar as taxas de juro até aos 3,50%. Na Zona Euro, o cenário é mais difícil considerando a maior exposição à subida dos preços da energia, mas, assumindo a contenção do conflito armado e a progressiva reabertura do Estreito de Ormuz, o BCE tentará limitar a subida das taxas de juro, acomodando a provável subida da inflação nos próximos meses de forma a evitar agravar o inevitável abrandamento económico.

Taxas de juro a 5 anos, forward 5 anos (5Y5Y)

Fonte: Bloomberg.

Assim, apesar do contexto relativamente construtivo – crescimento económico e inflação subjacente moderados, desemprego baixo, taxas de juro longe dos máximos recentes e recente subida dos prémios de risco – iniciamos o segundo trimestre com um posicionamento defensivo.

Com efeito, apesar das recentes correções dos principais índices accionistas e da subida dos spreads de crédito, os actuais prémios de risco, na nossa opinião, podem ainda não reflectir totalmente os efeitos potenciais do prolongamento da guerra e da subida dos preços da energia, na economia global. Ou seja, considerando a actual elevada incerteza, de acordo com a nossa análise, os prémios de risco ainda não subiram suficientemente (acima da média histórica) para adicionarmos, com convicção, mais exposição a risco nas Carteiras, nomeadamente em Acções.

No entanto, fazer o chamado timing do mercado, é extremamente difícil. Como tal, nas Carteiras com perfil de risco mais agressivo aumentámos ligeiramente a alocação às obrigações com rating High Yield, por redução de Dívida Pública, mantendo, alguma Liquidez para reforçar em níveis ainda mais altos, caso os spreads de crédito continuem a aumentar.

Spreads de Crédito (%)

Fonte: Bloomberg.

Por sua vez, entre as obrigações Investment Grade, mantemos, de forma selectiva, a preferência pela dívida Subordinada, tanto de Corporates como de Financials. Com efeito, à presente data, as obrigações híbridas Corporate oferecem um spread adicional de 80 bp sobre as obrigações senior com rating comparável (+11 bp face ao final de Fevereiro), e no segmento financeiro o acréscimo de spread ronda os 219 bp (+26 bp). Não obstante existir o risco de novas subidas dos spreads, na nossa opinião, os actuais níveis são interessantes para, de forma gradual, reforçar posições.

Por fim, mantemos o Overweight em Dívida Emergente, em moeda local, enquanto diversificadora entre a componente obrigacionista, num contexto de 1) USD tendencialmente mais fraco (historicamente favorável para a classe de activos), 2) descida das taxas de juro em vários mercados emergentes, após anos de políticas monetárias restritivas e 3) baixa participação de investidores estrangeiros em dívida local emergente, quando comparada com a média histórica, o que pode conduzir a novos fluxos de capital em busca de yields superiores.

Por seu turno, na componente accionista das carteiras, aumentamos a exposição às acções norte-americanas para Neutral, com base na melhoria das avaliações médias (o price-earnings forward 12 meses caiu para junto da média dos últimos cinco anos), e mantemos as acções europeias com uma alocação Neutral. Apesar da maior exposição à subida dos preços da energia, as avaliações das empresas europeias, medidas pelo índice Stoxx-600, pela nossa análise, continuam com um desconto considerável relativamente às congéneres norte-americanas, medidas pelo índice S&P-500 (cerca de 26% vs. um desconto médio de 18% nos últimos 20 anos). Adicionalmente, os mercados europeus poderão beneficiar dos anunciados compromissos políticos para o aumento do investimento em defesa e infraestruturas.

Price Earnings e Yield GapsFonte: Bloomberg, Banco Invest.

Por sua vez, os mercados emergentes permanecem igualmente atractivos (desconto médio de 30%) e deverão beneficiar, em termos relativos, de taxas de crescimento económico superiores, demografia favorável, moedas depreciadas e, em alguns casos, potencial para lucrar com a subida dos preços das matérias-primas.

Em termos sectoriais, sem alteração face ao trimestre anterior, mantemos a exposição aos temas identificados nos últimos Outlooks: Tecnologia, Saúde, Infraestruturas e Energia, e Segurança, incluindo Defesa e Cibersegurança. As oportunidades de investimento nos sectores identificados decorrem de tendências estruturais com impacto transversal a várias áreas da economia.

A Tecnologia tem vindo a impulsionar transformações em praticamente todos os sectores, dos serviços financeiros à indústria, da tecnologia à saúde. Com efeito, a digitalização acelerada, a inteligência artificial, a computação em nuvem e a automação estão a transformar modelos de negócio em praticamente todos os sectores de actividade, gerando procura crescente por soluções tecnológicas e abrindo novas fontes de receita para as empresas líderes.

Por seu lado, o sector da Saúde é especialmente relevante no contexto actual na medida que se trata de um sector estrutural, resiliente e impulsionado por tendências demográficas e tecnológicas de longo prazo. À medida que a população mundial envelhece e a esperança de vida aumenta, cresce também a procura por cuidados médicos, medicamentos, diagnósticos avançados e tecnologias de tratamento, garantindo um fluxo de receitas relativamente estável e menos sensível aos ciclos económicos. Paralelamente, o sector está a atravessar uma fase de forte inovação, marcada pelo desenvolvimento de terapias personalizadas, biotecnologia, medicina genética, dispositivos médicos inteligentes e digitalização de serviços de saúde. Estas transformações ampliam o potencial de crescimento de empresas inovadoras e aumentam a eficiência dos sistemas de saúde. Além disso, o sector da Saúde beneficia de características defensivas, oferecendo protecção natural em períodos de instabilidade económica ou de mercado. A despesa em saúde tende a manterse mesmo em ciclos de contracção económica, o que contribui para reduzir a volatilidade de uma carteira diversificada.

As Infraestruturas — transporte, energia, água, telecomunicações, redes elétricas, logística, entre outras — constituem a base de funcionamento das economias modernas, e a sua procura é relativamente inelástica: a sociedade precisa delas em períodos de expansão e também em fases de contração económica. Além disso, muitas economias enfrentam décadas de subinvestimento em infraestruturas essenciais, o que cria uma necessidade crescente de renovação e modernização. Este movimento está a ser reforçado por megatendências como transição energética, digitalização, mobilidade eléctrica, modernização de portos e aeroportos, e adaptação a eventos climáticos extremos. Estes factores tornam o sector numa fonte estável de cash-flows, muitas vezes associados a contratos de longo prazo e modelos de negócio regulados.

Por fim, investir nos sectores da Defesa e da Cibersegurança tornouse especialmente relevante no actual contexto global, marcado por tensões geopolíticas, conflitos regionais prolongados e uma crescente exposição a riscos digitais sofisticados. Estes sectores combinam uma necessidade estrutural com um forte potencial de crescimento.

Num momento em que múltiplas regiões enfrentam instabilidade — e em que conflitos como o do Médio Oriente têm impacto direto em cadeias de abastecimento, energia e comércio — governos de várias economias estão a aumentar de forma substancial os gastos em defesa, tanto para reforçar capacidades militares como para modernizar equipamentos, infraestruturas e sistemas tecnológicos. Esta tendência traduzse numa procura crescente e previsível por empresas do sector da Defesa, frequentemente apoiada por contratos de longo prazo e orçamentos públicos crescentes. Em períodos de incerteza geopolítica, este segmento tende também a funcionar como amortecedor de risco, já que a procura permanece elevada independentemente do ciclo económico.

Paralelamente, a cibersegurança tornouse uma prioridade global incontornável. O aumento dos ataques digitais dirigidos a empresas, governos, sistemas financeiros e infraestruturas críticas gerou uma aceleração no investimento em protecção de dados, encriptação, monitorização e sistemas avançados de defesa digital. A proliferação de ataques ransomware, a vulnerabilidade crescente das cadeias digitais e a digitalização massiva da economia fazem com que a procura por soluções de cibersegurança apresente um crescimento estrutural robusto, muitas vezes independente das flutuações macroeconómicas. Por outro lado, as recentes correcções das cotações destas empresas, devido aos receios de disrupção devido à inteligência artificial, na nossa opinião, constituem uma oportunidade para reforçar posições.

Durante o primeiro trimestre, as Carteiras beneficiaram do Overweight no dólar norte-americano (USD). Na nossa opinião, no médio prazo, o USD deverá manter-se pressionado pelas tensões comerciais e aumento das tarifas, na medida em que, pelo menos conceptualmente, a diminuição do comércio internacional poderá conduzir não só a uma diminuição do crescimento económico, como a uma menor necessidade de reservas em USD e, consequentemente, a uma menor procura internacional de Treasuries. Porém, o actual contexto de incerteza e tensões geopolíticas, fornecem suporte a este par cambial, pelo menos no curto prazo.

EUR/USD e Diferencial de taxas de juro a 2 anos

 
Modelo de regressão linear entre o diferencial de taxas de juro a 2 anos e a cotação do EUR/USD (R^2 igual a 0,54)
 

Fonte: Bloomberg, Banco Invest. Modelo de regressão linear entre o diferencial de taxas de juro a 2 anos e a cotação do EUR/USD.

 

Conclusão

O mundo continua a navegar uma fase marcada por incerteza geopolítica e volatilidade económica, onde a capacidade de adaptação e a disciplina na gestão de risco serão determinantes para transformar a instabilidade em oportunidades. Para os investidores, este período reforça a importância de manter uma estratégia disciplinada, de assegurar diversificação adequada e, acima de tudo, de evitar decisões precipitadas motivadas por emoções ou por ruído noticioso. A história mostra que os mercados recuperam e que aqueles que permanecem investidos, com um horizonte de longo prazo, tendem a colher os frutos dessa resiliência quando a incerteza diminui.

Após as correcções registadas desde o início da guerra no Médio Oriente, as avaliações das classes de activos com mais risco – Acções e Dívida Privada – melhoraram e convergiram para a média dos últimos cinco anos, e as yields da Dívida Pública alemã subiram para perto dos valores máximos dos últimos 15 anos. Deste modo, a incerteza actual não deve ser o pretexto para sair do mercado, mas antes encarada como uma oportunidade para rebalancear as Carteiras de investimento, assegurando o perfil de risco pretendido e o potencial de recuperação.

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