O ano de 2026 tem sido marcado por uma elevada instabilidade geopolítica, com a guerra no Médio Oriente a perturbar significativamente o fornecimento de petróleo e gás natural através do Estreito de Ormuz.
Como tal, o recente memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão é uma notícia obviamente positiva, diminuindo materialmente o risco de disrupção nos mercados internacionais de energia. Após o anúncio do memorando, o preço do petróleo corrigiu para cerca dos 80 USD por barril e, apesar de subsistirem ainda muitas dúvidas sobre o sucesso do esperado acordo, os mercados accionistas encontram-se perto de máximos históricos, impulsionados também pelos investimentos em Inteligência Artificial (IA), e as yields da dívida pública recuaram face aos máximos de meados de Maio.
Neste contexto, apesar da incerteza dominante, a volatilidade dos mercados accionistas — medida pelo índice VIX — mantém-se historicamente baixa, sugerindo que os investidores acreditam na resiliência da economia global e na rápida e definitiva reabertura do Estreito de Ormuz.
Global Economic Policy Uncertainty e Volatilidade (VIX)
Fonte: Bloomberg
Mercados no 2º Trimestre de 2026
Desde o início do ano, nos Estados Unidos, os índices S&P-500 e Nasdaq-100 registaram ganhos de +9,6% e +20,4%, em USD, respectivamente. Considerando os índices S&P-500 sectoriais, os ganhos foram liderados pelos sectores de Tecnologia de Informação (+21,1%), Energia (+18,6%) e Industriais (+16,3%). Entre as piores performances, destaque para os sectores da Saúde (-3,8%), Financeiro (-2,5%) e Consumo Discricionário (-1,1%).
Por sua vez, na Europa, os índices Stoxx-600 e EuroStoxx-50 registaram variações de +7,3% e +8,7%, respectivamente. Em Portugal, o índice PSI registou ganhos de +10,2%, prolongando a trajectória positiva observada em meses anteriores.
Entre os mercados emergentes (+27,2%, medido pelo índice MSCI Emerging Markets, em USD), o destaque recai sobre o mercado da Coreia do Sul (KOSPI), com uma subida acentuada de 101,8%, em USD. Entre os mercados sul-americanos, importa ainda realçar o desempenho do mercado brasileiro (IBOVESPA), com uma valorização de 11,4% (em USD).
Rendibilidades – 2026 YTD
Fonte: Bloomberg. Cotações em 19-Jun-2026.
Entre os mercados de Dívida Pública, nos Estados Unidos, as yields dos Treasuries a 2 e 10 anos subiram 70 e 29 bp desde o início do ano, para os 4,18% e 4,45%, respectivamente. Deste modo, a inclinação da yield curve diminuiu dos 69 bp para os 28 bp. Entre outros factores, o mercado continua a revelar preocupação com a sustentabilidade da dívida pública no longo prazo, bem como com um possível ressurgimento da inflação, nomeadamente, devido às pressões sobre os preços da energia decorrentes da situação no Médio Oriente.
Por sua vez, na Zona Euro, as yields dos Bunds alemães a 2 e 10 anos variaram +52 bp e +13 bp, para os 2,65% e 2,99%, respectivamente. Na Alemanha, o diferencial de yields entre estes dois prazos cifrou-se nos 34 bp.
Yields da Dívida Soberana
Fonte: Bloomberg. Yields dos índices US Treasuries e Euro Agg Government (maturidades médias de 7,7 e 6,0 anos).
Nos segmentos de Dívida Privada, desde o início do ano, os spreads de crédito do High Yield alargaram 6 bp na Europa e estreitaram 14 bp nos Estados Unidos, para os 250 bp e 303 bp, respectivamente. No segmento de Investment Grade, as variações foram menos expressivas, com os spreads de crédito a situarem-se nos 52 bp (+1 bp) e 50 bp (+0 bp), respectivamente. Deste modo, conjugando a evolução das yields e dos spreads de crédito, os índices globais de High Yield e Investment Grade variaram +1,8% e 0,0%, em EUR.
Nos mercados cambiais, o USD ganhou +2,4% contra o EUR e +2,9% contra o JPY nos primeiros seis meses do ano. Em parte, a apreciação do dólar foi impulsionada pelo aumento da procura por activos de refúgio, sobretudo após a eclosão da guerra no Irão.
Por fim, desde o início do ano, os preços das matérias-primas apresentaram um ganho médio de +17,1%, medido pelo índice S&P GSCI Spot, em USD. O destaque recai sobre a Energia (+31,7%), em particular, o Petróleo, com a cotação do barril de Brent a ganhar terreno (+31,2%). Este movimento decorre das tensões no Médio Oriente e subsequente fecho do estreito de Ormuz. No entanto, importa sublinhar a existência de um memorando de entendimento poderá abrir caminho ao restabelecimento da navegação no estreito, ainda que a normalização do fluxo possa ser demorada, dada a persistência, no curto prazo, de constrangimentos operacionais, logísticos e de segurança.
Outlook 3º Trimestre
Passados mais de 100 dias desde o início da guerra e dois meses de negociações, no dia 14 de Junho foi (finalmente) anunciado um acordo preliminar entre os Estados Unidos e o Irão para terminar o conflito e reabrir o Estreito de Ormuz. Apesar dos pontos mais críticos continuarem em aberto, como, por exemplo, o programa nuclear do Irão, este acordo de entendimento teve o mérito de suspender o conflito armado e aliviar as pressões inflacionistas, por via da queda do preço do barril de petróleo.
Assim, o risco de uma escalada da inflação diminuiu claramente, assumindo a referida reabertura do Estreito de Ormuz. Desde Fevereiro deste ano, o CPI acelerou claramente em ambos os lados do Atlântico: na Zona Euro passou de 1,9% para 3,2%; nos Estados Unidos subiu de 2,4% para 4,2%. Como tal, a normalização das tensões do Médio Oriente é fundamental para a diminuição da inflação nas principais economias mundiais. E, neste sentido, a boa noticia é que as expectativas de inflação de longo prazo — medidas pelas taxas forward 5y5y — permanecem ancoradas entre os 2,00% e os 2,50%, sinalizando a confiança dos investidores na transitoriedade da inflação. Se tal for o caso, a FED, sob o comando do novo presidente Kevin Warsh, deverá manter inalteradas as taxas de juro, nos actuais 3,50%-3,75%, e o BCE, após a subida de 25 bp em Junho, é esperado subir, no máximo, mais 25 bp, para os 2,50%.
Taxas de juro a 5 anos, forward 5 anos (5Y5Y)

Fonte: Bloomberg.
Desta forma, o principal risco passa a residir, na nossa opinião, nas actuais avaliações dos activos com risco, nomeadamente do Crédito e das Acções. Sendo certo que as avaliações tendem a ser um indicador fraco no curto prazo para fazer o timing do mercado, os actuais níveis observados em alguns activos e sectores denotam, muito provavelmente, algum excesso de optimismo por parte dos investidores, indiciando rendibilidades futuras inferiores às registadas nos últimos anos.
Após a subida das yields verificada nos últimos três meses — reflexo direto das pressões inflacionistas —, as obrigações de dívida pública voltaram a apresentar níveis de rendibilidade mais atractivos, em especial na Zona Euro, onde as perspectivas de crescimento económico são mais fracas. As yields americanas a 10 anos rondam os 4,4%, enquanto as europeias equivalentes aproximam-se dos 3%, oferecendo agora uma maior margem de segurança considerando as perpectivas de crescimento nominal dos respectivos PIB. Por outro lado, em caso de deterioração das perspectivas económicas, estas obrigações, nomeadamente as com maturidades mais longas, poderão contribuir para mitigar os efeitos negativos de uma correção dos mercados accionistas.
Apesar da incerteza económica e geopolítica, os spreads de crédito continuam muito abaixo das médias históricas. Na Europa, o Investment Grade (IG) situa-se nos 50 bp (média de 68 bp, nos últimos cinco anos) e o High Yield (HY) em 278 bp (média de 388 bp). Nos EUA, o IG situa-se nos 50 bp (média de 62 bp) e o HY nos 303 bp (média de 378 bp). Deste modo, na nossa opinião, a rendibilidade futura da classe de activos deverá rondar, no máximo, as yields actuais destas obrigações, sem espaço para ganhos significativos por redução de spreads de crédito: na Europa, as yields das obrigações IG situam-se, em média, nos 3,3%, e as yields das obrigações HY situam-se nos 6%, o que não deixam de ser níveis interessantes, mas, sobretudo, numa óptica de rendimento. Neste sentido, a nossa preferência continua a recair no segmento de Investment Grade, pela menor correlação com o mercado accionista, em especial em cenários de correcção (quando as acções caem os spreads de HY tendem a aumentar mais, diminuindo o efeito de diversificação).
Spreads de Crédito (%)

Fonte: Bloomberg.
As avaliações dos mercados accionistas melhoraram, aproximando-se das médias dos últimos cinco anos. O índice europeu Stoxx-600 negoceia com um múltiplo de 15,0x os resultados esperados a 12 meses e o S&P-500 com um rácio de 20,5x, ligeiramente acima da média do período (13,8x e 20,0x, respectivamente). Contudo, os prémios de risco das acções — medidos pelo yield gap face às obrigações de dívida pública (“sem risco”) — permanecem muito abaixo das médias históricas: 3,7% na Europa (média de 5,3%) e apenas 0,4% nos EUA (média de 1,4%), evidenciando que as acções não estão “baratas” em termos relativos.
Deste modo, mesmo assumindo como válido o actual consensus do mercado para o crescimento futuro dos resultados das empresas, na nossa opinião, as rendibilidades futuras deverão ser inferiores às registadas nos últimos dez anos. Por exemplo, no caso do índice norte-americano S&P-500, as nossas projecções apontam para um retorno médio anual de 6,7% nos próximos três anos (retorno total), um valor positivo, mas significativamente inferior aos 15,5% registados nos últimos dez anos. Na Europa, as avaliações encontram-se menos exigentes, embora se justifique um prémio de risco superior, considerando as idiossincrasias políticas e económicas do bloco. Por sua vez, os mercados emergentes permanecem atractivos, mesmo após as recentes valorizações, nomeadamente o mercado chinês.
Price Earnings e Yield Gaps
Fonte: Bloomberg, Banco Invest.
Sectorialmente, mantém-se a preferência pela Tecnologia, Saúde e Biotecnologia, Infraestruturas, incluindo Utilities.
A Tecnologia tem vindo a assumir um papel estruturante na transformação dos modelos de negócio a nível global, impulsionada pela digitalização, pela computação em nuvem, pela automação e, cada vez mais, pela Inteligência Artificial. A Inteligência Artificial destaca-se como um motor transversal de inovação, permitindo às empresas analisar grandes volumes de dados, automatizar decisões complexas, melhorar a eficiência operacional e desenvolver produtos e serviços altamente personalizados. Dito isto, as avaliações de algumas empresas encontram-se particularmente elevadas, com o mercado a “descontar a perfeição”, pelo que é fundamental uma abordagem cada vez mais selectiva, num contexto de índices excessivamente concentrados no sector.
Composição do índice S&P-500
Fonte: Bloomberg.
Por seu lado, o sector da Saúde é especialmente relevante no contexto actual, na medida que se trata de um sector estrutural, resiliente e impulsionado por tendências demográficas e tecnológicas de longo prazo. À medida que a população mundial envelhece e a esperança de vida aumenta, cresce também a procura por cuidados médicos, medicamentos, diagnósticos avançados e tecnologias de tratamento, garantindo um fluxo de receitas relativamente estável e menos sensível aos ciclos económicos. Paralelamente, o sector está a atravessar uma fase de forte inovação, marcada pelo desenvolvimento de terapias personalizadas, biotecnologia, medicina genética, dispositivos médicos inteligentes e digitalização de serviços de saúde. Estas transformações ampliam o potencial de crescimento de empresas inovadoras e aumentam a eficiência dos sistemas de saúde. Além disso, o sector da Saúde beneficia de características defensivas, oferecendo protecção natural em períodos de instabilidade económica ou de mercado. A despesa em saúde tende a manter‑se mesmo em ciclos de contracção económica, o que contribui para reduzir a volatilidade de uma carteira diversificada.
As Infraestruturas — transporte, energia, água, telecomunicações, redes elétricas, logística, entre outras — constituem a base de funcionamento das economias modernas e a sua procura é relativamente inelástica: a sociedade precisa delas em períodos de expansão e também em fases de contração económica. Além disso, muitas economias enfrentam décadas de subinvestimento em infraestruturas essenciais, o que cria uma necessidade crescente de renovação e modernização. Este movimento está a ser reforçado por megatendências como a Inteligência Artificial, transição energética, mobilidade eléctrica, modernização de portos e aeroportos, e adaptação a eventos climáticos extremos. Estes factores tornam o sector numa fonte estável de cash-flows, muitas vezes associados a contratos de longo prazo e modelos de negócio regulados.
Investimento em Inteligência Artificial
Fonte: Bloomberg.
Com o início da guerra no Médio Oriente, o diferencial de taxas de juro a dois anos entre o USD e o EUR aumentou cerca de 45 bp, com os mercados a descontar rapidamente a possibilidade da FED ser obrigada a subir as taxas de juro para combater as pressões inflacionistas. Este movimento, conjugado com o habitual refúgio na moeda norte-americana em períodos de maior incerteza, na nossa opinião, justificou a apreciação do USD contra o EUR, para os actuais 1,15. Contudo, com base nas taxas de juro da FED e do BCE implícitas nos mercados de futuros para o final de 2026 (3,8% e 2,5% respectivamente), o potencial para novos ganhos do USD parece-nos limitado. Pelo contrário, uma eventual diminuição deste diferencial de taxas de juro, por exemplo por via de uma política mais dovish pela FED, poderá significar o EUR/USD testar novamente os 1,20.
EUR/USD e Diferencial de taxas de juro a 2 anos
Fonte: Bloomberg, Banco Invest. Modelo de regressão linear entre o diferencial de taxas de juro a 2 anos e a cotação do EUR/USD.
Conclusão
No trimestre anterior referimos que “a incerteza actual não deve servir de pretexto para sair do mercado. Pelo contrário, a volatilidade deve ser encarada como uma oportunidade para rebalancear as carteiras, mantendo exposição diversificada entre classes de activos e privilegiando sectores com avaliações mais atractivas e maior resiliência num ambiente de inflação persistente e crescimento moderado”.
A perspectiva de um acordo entre os Estados Unidos e o Irão para o fim da guerra e reabertura do Estreito de Ormuz vem diminuir as pressões inflacionistas e o risco de subida de taxas de juro por parte dos principais bancos centrais. Por outro lado, o investimento em Inteligência Artificial, não apenas em tecnologia, mas em toda a infraestrutura necessária, deverá continuar a suportar o crescimento económico, nomeadamente nos Estados Unidos. Na Europa, o catalisador poderá ser o tema da Autonomia Estratégica, incluindo Defesa e Segurança, e Transição Energética.
Assim, não obstante a volatilidade poder aumentar no curto prazo, dadas as avaliações elevadas de alguns activos, o enquadramento a médio prazo mantém-se positivo, num contexto macroeconómico resiliente, diminuição das pressões inflacionistas e crescimento de resultados das empresas. Os três principais riscos a monitorizar permanecem: (i) a incerteza económica e geopolítica e o seu impacto no crescimento e na inflação; (ii) a sustentabilidade das margens operacionais das empresas; e (iii) o cenário de taxas de juro elevadas por mais tempo, considerando o elevado endividamento público de muitas economias importantes.